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Mobilitazione totale (português) - Maurizio Ferraris

Mobilitazione totale (português)

Tradução em português

Maurizio Ferraris

Maurizio Ferraris, filósofo italiano, retoma o conceito de «mobilização total», de que falava Ernst Jünger nos anos 30, para pensar o impacto intrusivo e manipulador da web, bem como a sua capacidade de modificar e condicionar a vida daqueles que julgam poder dominá-la. Haverá saída para contornar este horizonte antropológico em que a chamada (uma vibração do telemóvel, um toque incómodo do Skype, uma sms ou simplesmente a notificação de um e-mail, é uma chamada às armas no centro da vida civil? Maurizio Ferraris confessa-se pessimista, mas diz que sim, e aponta para a necessidade de compreensão: ainda que compreender não signifique transformar, é, porém, a grande possibilidade que nos é dada enquanto seres humanos em confronto com a era digital que nos mergulha num estado permanente de servidão voluntária.

Maurizio Ferraris (1956), filósofo e investigador, é professor de Filosofia na Universidade de Turim, onde dirige o LabOnt (Laboratório deOntologia). Colabora, desde 2010, com o jornal la Repubblica e é diretor da Rivista di Estetica e codiretor da Critique. Foi aluno de Gianni Vattimo e considera-se influenciado por Jacques Derrida. As suas principais áreas de investigação são a hermenêutica, a estética e a ontologia. A sua vasta bibliografia está traduzida em várias línguas.

«Pense-se em todas as notificações que recebemos nos nossos telefones, nos
e-mails a que não respondemos ainda e nos dois vistos azuis numa mensagem do WhatsApp. Para não falar do dever de devolver um like ou um comentário, ou a esperança de que alguém popular nos faça retweet. E, por fim, há também aquela memória quase indelével que é a web, uma realidade à qual, como sabemos, qualquer um pode facilmente ter acesso e ver quem somos e o que fizemos. A partir do momento em
que a estrutura fundamental da realidade social é oferecida de forma crescente pela web, os seres humanos revelam-se não como bípedes sem penas ou como animais dotados de logos, mas como seres mobilizados. Sentimo-nos continuamente em falha, porque é exercida sobre nós uma constante pressão social. Não só pelo facto de estarmos sempre conectados, e, portanto, à disposição, inclusive de noite e de férias, mas também, e sobretudo, porque estamos diante de um registo massivo.»
(Excerto da introdução de João Rebalde e Alberto Romele)
Resumo: parafernália da era digital mergulha-nos num estado permanente de servidão voluntária. Quase sem termos consciência disso, vivemos hoje num estado de mobilização total, uma expressão de Ernst Jünger, que a aplicou ao mundo que irrompeu com a Primeira Guerra Mundial e que tornou esse conflito inédito: a sociedade inteira foi compulsivamente alistada ou, pelo menos, obrigada a disponibilizar-se para engrossar a economia da guerra. Essa disponibilidade para a mobilização total ocorre precisamente, no século XXI, com os dispositivos ideológicos e técnicos, capazes de controlar tudo o que diz respeito à experiência humana. Maurizio Ferraris, filósofo italiano, regressa a este conceito para pensar o impacto intrusivo e manipulador da Web, bem como a sua capacidade de modificar e condicionar a vida daqueles que julgam poder dominá-la. Haverá saída para contornar este horizonte antropológico? Maurizio Ferraris confessa-se pessimista, mas diz que sim, e aponta para a procura da compreensão: ainda que compreender não signifique transformar, é, porém, a grande possibilidade que nos é dada enquanto seres humanos.